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domingo, 1 de abril de 2012

Hora do Planeta: uma oportunidade para o debate

Por Joaquim Maia Neto
Ontem foi realizada a sexta edição da “Hora do Planeta”. O evento, criado pela ONG ambientalista WWF, foi realizado pela primeira vez em 2007 na Austrália e acontece anualmente no último sábado do mês de março.
Durante 60 minutos, entre as 20h30 e as 21h30 no horário local de cada país, cidadãos de todo o mundo são convidados a apagar as luzes como forma de refletir sobre o aquecimento global. Mas qual a relação entre o apagar das luzes e o efeito estufa?
No Brasil há certa dificuldade em se entender essa relação devido às peculiaridades da nossa matriz energética, que é muito diferente quando comparada à média mundial. O gráfico ao lado mostra uma comparação entre a matriz brasileira e a mundial. Enquanto aqui aproximadamente 54,1% da energia utilizada provém da queima de combustíveis fósseis, no mundo a participação desse tipo de energia na matriz chega a 80,3%. Esses percentuais não se referem apenas à energia utilizada para iluminação e nem mesmo apenas à energia elétrica, mas incluem, por exemplo, a energia utilizada nos transportes. Como no Brasil a maior parte da energia elétrica distribuída é proveniente de usinas hidrelétricas, há uma tendência a se ignorar a relação entre iluminação artificial e aquecimento global. Em termos globais, dada a matriz energética mundial, é certo que quanto menos luzes estiverem acesas menos carbono será emitido à atmosfera.
É lógico que uma hora por ano com luzes apagadas não resolverá o problema e nem tampouco irá contribuir em termos percentuais de maneira significativa para a desaceleração do efeito estufa. Mas não é esse o objetivo da hora do planeta. O principal objetivo é fazer com que, por meio de uma ação coordenada mundialmente, pessoas parem o que estão fazendo, saiam da sua rotina e pensem no que pode ser feito para o combate deste que é um dos maiores problemas que a humanidade enfrentará, ou melhor, está enfrentando.
Assim, a crítica quanto à ineficácia da Hora do Planeta sob o aspecto da insignificância da redução de emissões durante estes 60 minutos não procede, pois não é essa a intenção do movimento. Há outras críticas pertinentes que, no meu ponto de vista, não desqualificam a realização do evento. Faço questão de divulgar e participar, pois acho que qualquer ação ambiental, por mínima que seja, ainda que insuficiente, traz algum tipo de resultado positivo, mesmo que seja apenas o despertar em algumas pessoas da reflexão sobre a validade ou não daquela ação. Se a conclusão for pela sua inadequação, ao menos ficará o questionamento sobre o que pode ser feito de maneira mais adequada.
Acho que deveríamos aproveitar a crescente popularização da Hora do Planeta ao longo dos anos para ampliar o seu escopo. Nada impede que em cada localidade o evento seja adaptado às peculiaridades locais. Por exemplo, no Brasil seria interessante que se incluísse, além do apagar das luzes e do desligamento de eletrodomésticos, a não utilização de veículos automotores, pois aqui eles contribuem mais com o efeito estufa do que as luzes. Há localidades brasileiras onde a produção de energia elétrica é feita predominantemente por meio da queima de combustíveis fósseis, mas isso representa um percentual pequeno na realidade do país. Sabemos também que a energia hidrelétrica não é totalmente limpa e que as usinas que geram esse tipo de energia também emitem um pouco de gases do efeito estufa, como metano, por exemplo. Há ainda outros impactos ambientais causados pelas UHEs, mas não há como negar que, no que diz respeito à contribuição ao aquecimento global, elas são melhores do que as termoelétricas movidas a combustíveis fósseis.
Uma importante lição da Hora do Planeta é que não precisamos de toda a energia que estamos consumindo. Nesses sessenta minutos em que ficamos privados de alguns confortos do mundo moderno, percebemos que não foi tão difícil ficar sem alguns deles. Até porque há pouco tempo atrás não os tínhamos. Podemos utilizá-los com menor intensidade, ou ainda dispensá-los, sem que isso nos impeça de viver dignamente. E isso leva a uma reflexão mais profunda. Não são apenas as luzes que precisam ser apagadas. Nosso consumo desenfreado é que precisa urgentemente ser apagado. Nossos padrões atuais são incompatíveis com aquilo que a natureza pode nos oferecer sem se desequilibrar. Não adianta produzir produtos “ecoeficientes” e comprar coisas “ambientalmente corretas” se essas condutas forem utilizadas para acalmar nossas consciências e promover ainda mais consumo.
A crescente demanda por energia e o consequente aumento de emissões de gases do efeito estufa são causados pela lógica capitalista que leva as pessoas a comprar cada vez mais. Se nossos padrões de consumo não mudarem, produzir equipamentos que consomem menos energia, assim como apagar as luzes não serão nada mais do que “enxugar gelo”.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Golpe baixo

Por Joaquim Maia Neto
É impressionante como o poder do capital supera divergências ideológicas e rivalidades políticas. A revista Veja, um dos mais tendenciosos veículos de imprensa do país, é capaz de se alinhar com o governo quando o assunto é a defesa dos interesses das empreiteiras, do agronegócio e das petroleiras. É o que podemos deduzir da edição distribuída neste domingo (nº 2246), com três matérias “ambientais” na sequência (páginas 140 a 152). Em uma das matérias a revista afirma, referindo-se ao código florestal aprovado recentemente nas comissões do Senado, que “O novo código é o primeiro passo para conciliar preservação e desenvolvimento econômico”. Em outra, destaca cientistas que fraudaram pesquisas que associam o aquecimento global à atividade industrial, mas omite uma infinidade de estudos sérios que indicam a natureza não natural do aumento de temperatura que testemunhamos nos dias de hoje. Mas é a matéria de capa que será tratada neste artigo.

A publicação semanal dos Civita até que presta alguns serviços ao país denunciando falcatruas que ocorrem na administração pública, mas costuma exagerar, beirando a leviandade, quando os fatos comprometem o governo do PT. Não tem a mesma combatividade contra os tucanos. Simplesmente esqueceu o escândalo da inspeção veicular existente no Rio Grande do Norte, com conexões em São Paulo, que envolve tucanos de alta plumagem. Será que essa postura guarda alguma relação com o fato de a Editora Abril não ter sido contemplada no pacotão de salvamento das empresas de comunicação promovido pelo governo Lula, que salvou as Organizações Globo? De qualquer maneira, a liberdade de Veja é necessária num estado democrático de direito. É melhor convivermos com os excessos inerentes à democracia, do que com a censura.

O “estranho” alinhamento de Veja com o governo veio com uma matéria escandalosamente superficial, recheada de informações parciais e distorcidas, voltada a desqualificar um trabalho de militância ambientalista de um grupo de estrelas da Rede Globo. Dezenove atores globais lançaram um movimento (movimentogotadagua.com.br) que tem como principal instrumento de divulgação um vídeo no qual criticam a construção da futura Usina Hidrelétrica de Belo Monte, projetada para o Rio Xingu, no estado do Pará. De acordo com a revista, alguns vídeos postados na internet com a participação de estudantes de engenharia e economia da Unicamp e da UnB, além do apresentador Rafinha Bastos, famoso por suas declarações polêmicas de caráter homofóbico, racista, machista e discriminatório, teriam “nocauteado” as estrelas da Globo por meio de argumentos inteligentes e supostamente calcados em pesquisas, em oposição as “tagarelices” e à “desinformação” dos globais, nas palavras da Veja.

Os vídeos que Veja utiliza para fundamentar sua matéria, são sátiras ao filme do movimento contrário à usina e têm uma linha fascista pois, apesar de aparentemente rebaterem as informações dos globais com dados técnicos, é evidente a motivação voltada à desqualificação das pessoas dos atores, apenas por estarem vinculados profissionalmente a uma emissora com perfil reacionário. São assim, mais reacionários do que a própria Rede Globo.

O histórico de comprometimento das Organizações Globo com o atraso do país, efetivado na sua estreita relação com setores oligárquicos da política nacional, faz com que os vídeos dos estudantes e a matéria de Veja tenham algum apelo junto aos “inconformados” mais desavisados que, caindo na armadilha fascista da desqualificação pessoal por meio do rótulo “Global” imputado aos artistas, atacarão o movimento pensando atacar a Globo. Estes que hoje rotulam os artistas para desqualificá-los, já fizeram o mesmo com comunistas, petistas, socialistas, ambientalistas, religiosos e tantos outros, tratando-os como ingênuos, irresponsáveis, loucos ou lunáticos. Da mesma forma já desqualificaram ONGs sérias, com o argumento de que estão “a serviço de interesses estrangeiros”. Por que não fizeram o mesmo com o movimento “Sou Agro”, também estrelado por (outros) artistas globais? Será que é porque seus interesses ocultos são coincidentes? Cabe perguntar se a motivação de Veja e dos estudantes é apenas o interesse no debate construtivo ao desenvolvimento do país ou se há alguma influência das empreiteiras que vivem de dinheiro público, engordam, direta ou indiretamente, as carteiras de publicidade do grupo Abril e contratam engenheiros treinees recém-formados, como serão em breve os “cultos” atores do Youtube favoráveis à Belo Monte.

Feitas as devidas considerações acerca da motivação da reação, vamos ao debate sobre a usina. É preciso que se diga que Veja omitiu o fato de que cerca de 350 cientistas e intelectuais brasileiros de diversas instituições públicas e privadas, incluindo renomadas universidades, encaminharam à presidente Dilma uma carta criticando a construção da Usina de Belo Monte, com argumentos científicos que justificam a oposição ao projeto.

Um dos supostos “golpes” dos estudantes que teria levado a nocaute os artistas, é a constatação de que o Brasil precisa de incremento na produção energética para fazer frente à demanda representada pela duplicação do consumo nos próximos dez anos, considerando a projeção de crescimento de 5% ao ano. Se o Brasil não atender a esta demanda “a economia vai ficar travada”. Este é um argumento baseado na lógica de que desenvolvimento é igual a crescimento, uma tese que vem sendo desmontada pela chamada “economia verde”. Fruto da ganância capitalista, a política de crescimento contínuo é insustentável e responsável por danos ambientais, geração de resíduos e esgotamento dos recursos naturais. Tal política sequer garante distribuição de renda e justiça social, e o colapso ambiental que provoca leva à crise econômica futura.

Veja é brilhante na arte da manipulação de números e informações. Destaca o cálculo de um engenheiro mostrando o percentual de floresta que será alagada em relação à área total da Amazônia Legal. Claro que esta porcentagem é pequena, mas Veja não informa que a Amazônia Legal não é só floresta e “esquece” que Belo Monte é apenas uma das usinas projetadas para a região. Além disso, os impactos de uma UHE sobre o ecossistema não são restritos às árvores que serão suprimidas, mas contemplam a alteração da dinâmica hidrológica, a obstrução do trânsito da fauna aquática, a eutrofização do ambiente, entre outros. Deve-se considerar o percentual de espelho d’água impactado pelo conjunto das usinas em relação à bacia hidrográfica. Dizer que metade da área alagada é o próprio leito do rio é uma típica distorção dos fatos, pois transformar um ambiente aquático lótico (água corrente) em lêntico (água parada) é uma alteração ambiental negativa altamente significativa.

Outra grosseira manipulação dos fatos é cometida acerca da diferença de vazão do Rio Xingu entre os períodos de maior cheia e de maior seca. Utilizando os próprios dados publicados pela revista, percebemos que a vazão mínima é de menos de 3% da vazão máxima. A comparação que a revista usa, mostrando que esta vazão mínima pode encher 1600 piscinas olímpicas por hora, só não me faz rir porque eu sei que ela engana leitores que não estão familiarizados com o assunto. Já que é para manipular números, vamos dar outro exemplo. Se você tem um copo com 250 ml de água e outro com 3% deste volume, ou seja, 7,5 ml, o que você dirá deste copo? Que está praticamente vazio, não é?
Fonte: http://www.paginainternacional.com.br/

Com base no depoimento de um cacique, Veja afirma que os índios estão satisfeitos com a obra. Uma rápida busca no Google mostrará diversos vídeos de manifestações indígenas contra a usina. Mesmo que nenhum palmo de terra indígena seja alagado, o que é contestado por muitos pesquisadores e engenheiros, a preocupação dos povos do Xingu é com a alteração ambiental que a obra causará e que poderá impactar suas terras de maneira negativa. Qualquer barramento de rio é desastroso para a ictiofauna, que é uma fonte de alimento importante para índios e ribeirinhos.

Outro exemplo de desqualificação reverberada pela Veja é a fala de uma estudante da Unicamp a respeito da localização do Parque do Xingu. Qualquer brasileiro médio, ao olhar o mapa, dirá que o Parque está abaixo da barragem, pois em geral as pessoas, ainda que equivocadamente, consideram que algo que está mais ao sul “está mais abaixo”. Nem todos sabem que, tecnicamente, em uma bacia hidrográfica algo está mais abaixo quando está a jusante, e não a montante, como é o caso do Parque em relação à barragem. Utilizar uma fala que é comum na linguagem popular para desqualificar o vídeo é altamente tendencioso. A distância de mil quilômetros do Parque do Xingu até a barragem é um mero detalhe, porque muito mais próximo do que isso estão várias outras terras indígenas e importantes unidades de conservação, como a Reserva Extrativista Rio Xingu e a Estação Ecológica da Terra do Meio, que sofrerão indiretamente os impactos da barragem.

Energia hidrelétrica não é energia limpa. Maitê Proença está certa. A frase simplista, quase infantil de um estudante da Unicamp, que diz que é limpa porque a água sai como entrou, não deveria embasar matéria jornalística de uma revista que se diz séria. Reservatórios de usinas hidrelétricas emitem metano oriundo da matéria orgânica morta em consequência do alagamento, em quantidade muito superior aos processos naturais que ocorrem na floresta, mesmo quando é feito o desmatamento das áreas a serem alagadas, pois este procedimento mitiga o impacto mas não o neutraliza. Além disso, o conceito de energia limpa fundamentado apenas na emissão de gases do efeito estufa é muito pobre, pois há vários outros impactos ambientais relacionados à geração de energia hidrelétrica.

Quanto ao fator de capacidade da usina, mesmo que seja de 41% como afirma o “nocauteador” engenheiro Cássio Carvalho, este número é inaceitável para os dias atuais. A média brasileira de 52%, puxada para baixo pela ineficiente UHE de Balbina, é bem maior que a de Belo Monte. Diversos técnicos afirmam que Belo Monte será a usina mais cara e menos produtiva do país. Não podemos aceitar que uma usina nova seja tão menos eficiente do que a média nacional, pois os avanços tecnológicos ao longo do tempo deveriam levar ao aumento da eficiência energética.
Usina termo solar concentrada no deserto de Mojave,
Califórnia, EUA

Finalmente, um tema que tem pautado a discussão acerca da matriz energética: o custo da produção do kilowatt/hora. É verdade que a energia hidrelétrica é muito barata. Um kilowatt/hora custa no Brasil cerca de R$ 0,05. É bem menos que os valores das fontes alternativas. Porém, é um equívoco deixar de investir na diversificação da matriz, pois é justamente o aumento da produção que barateia o custo. A comparação do custo da energia hidrelétrica com o de energias mais limpas não considera o custo das externalidades negativas inerentes aos impactos ambientais e sociais das usinas hidrelétricas. Hoje o Brasil já produz energia eólica competitiva. A revista Veja cita custos de investimentos em energias alternativas sob os rótulos de “energia eólica” e “energia solar”. Outra desinformação, não dos artistas, mas da Veja. O custo a que Veja se refere provavelmente é o da energia fotovoltaica, aquela produzida a partir de painéis solares, muito cara e pouco eficiente. A energia solar mais eficiente é a termo solar concentrada (Concentrated Solar Power). Os EUA têm aumentado muito o investimento neste tipo de geração e a Alemanha planeja investir no mesmo sentido em países que tenham potencial, como os do norte da África. O custo de um kilowatt/hora deste tipo de energia gira hoje na casa dos R$ 0,48, mas pode ser reduzido para a metade disso em dez anos com os investimentos iminentes. Ainda é muito quando comparado ao custo da energia hidrelétrica, mas não é nenhum absurdo quando se considera o potencial de redução de impactos ambientais.

É lamentável ver uma das raras iniciativas em prol do meio ambiente vinda de artistas formadores de opinião sendo bombardeada por uma matéria de capa tendenciosa em uma das revistas de maior circulação no país, com base em omissões e manipulação de dados. Só é possível ter acesso à informação de qualidade consultando veículos de imprensa alternativos. A Internet ajuda muito. Graças a ela podemos desmontar farsas como a da Veja e ver que o nocaute não passa de golpe baixo.