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domingo, 19 de fevereiro de 2012

Globalização e meio ambiente

Por Joaquim Maia Neto
Apesar de o termo “globalização” estar, de uma maneira geral, associado às mudanças ocorridas no cenário mundial entre o final do século XX e o início do século XXI, é possível afirmar que se refere a um fenômeno cíclico, com picos “globalizadores” ao longo da história. Talvez a primeira grande onda da globalização tenha ocorrido durante o período das grandes navegações, que possibilitaram ligações comerciais entre continentes distantes.
A globalização como a conhecemos hoje tem suas raízes na época imediatamente posterior ao fim da segunda guerra mundial. Os maciços investimentos empreendidos por algumas nações, direcionados à manutenção da máquina de guerra, fincaram as bases do aparato tecnológico que possibilitou a expansão dos mercados, criando a chamada economia-mundo.
Os EUA emergiram da segunda grande guerra como potência econômica. Beneficiados pela concentração da tecnologia e pela capacidade econômica de financiar a reconstrução dos países arrasados pelo conflito, passaram a exercer forte domínio sobre boa parte do mundo, não alcançando a hegemonia global graças à bipolarização decorrente da divisão do poder mundial com a União Soviética. Surgida após a primeira guerra mundial em decorrência da revolução que depôs a monarquia czarista, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas - URSS lutou ao lado dos aliados na segunda guerra, pois havia sido invadida pelas tropas nazistas. Com a derrota do Eixo, coalizão composta, entre outros, pela Alemanha, Itália e Japão, a URSS, que à época já era uma potência industrial, garantiu influência sobre todo o leste europeu. Essa bipolarização deu origem à Guerra Fria, que duraria até 1991.
Após a queda do Muro de Berlim, em 1989, as condições para a rápida expansão capitalista no mundo estavam criadas. A partir de então o poder das corporações passou a ficar cada vez mais evidente em detrimento do poder dos estados nacionais. A adoção por muitos países de modelos econômicos liberais, sob a influência da doutrina implantada por Margaret Thatcher no Reino Unido, aliada ao avanço tecnológico nas comunicações e nos transportes, permitiu o surgimento da “aldeia global”. Estabeleceu-se a divisão internacional do trabalho, por meio da qual as corporações pulverizam etapas da produção de bens em diversos países, garantindo o maior lucro possível. Enquanto no passado a produção industrial se dava na metrópole, que obtinha a matéria prima a partir das colônias, no novo modelo a produção passou a ser feita nos países menos desenvolvidos para garantir menor custo de produção, devido principalmente à mão-de-obra mais barata. A prática muitas vezes leva à exploração desumana dos trabalhadores de países periféricos e garante a disseminação global dos produtos a preços competitivos.
Fonte: http://www.gaia.org.pt/

As consequências ambientais da globalização e da implantação da nova ordem mundial do pós-guerra são catastróficas. A crise ambiental que ameaça o futuro do planeta tem sua origem justamente na expansão capitalista promovida pela globalização. Para a economia globalizada continuar crescendo são necessários cada vez mais consumidores, ainda que não consumam sequer o mínimo necessário a uma vida digna. O aumento do consumo por aqueles que já dispõem do necessário para viver é uma necessidade constante, que é estimulada por campanhas publicitárias, mensagens subliminares e por um sistema que valoriza as pessoas pelo seu poder de compra e não pela essência de cada ser.
Planejamento familiar, soluções coletivas para aquisição de bens e serviços (incluindo o transporte coletivo), formas alternativas de produção, estímulo à produção familiar de alimentos, entre outros, contrariam a lógica do mercado global e por isso não são fomentados pelos governos e instituições públicas capturados pelas corporações. Para que essa máquina continue girando é preciso que se disseminem padrões de comportamento altamente consumistas.
Nessa esteira seguem estratégias altamente sofisticadas, como a chamada obsolescência programada, observada com facilidade, por exemplo, no mercado de telefones celulares. Apesar de haver tecnologia disponível para produtos mais sofisticados, os modelos são lançados “a conta-gotas” para estimular o maior consumo. A indústria da moda é outra vertente da estratégia consumista, ditando padrões voláteis que impõem aos seus seguidores a necessidade de comprar novas roupas a cada estação.
As necessárias ações mitigadoras de problemas sociais, como o combate à fome, por exemplo, ou mesmo algumas louváveis ações de inclusão social, muitas vezes ajudam a movimentar o sistema, na medida em que trazem mais consumidores ao mercado. No entanto, medidas que possam distribuir renda mais efetivamente, como tributação progressiva ou uma regulação mais rígida do mercado não são adotadas. Discussões sobre controle populacional são consideradas tabus, sob o pretexto de que o desenvolvimento proporcionado pelo avanço da economia de mercado promove naturalmente o planejamento das famílias.
Fonte: leonamsouza.blogspot.com

No mundo dominado pelos interesses corporativos a demanda por matéria prima e energia é crescente. Isso resulta em exploração insustentável dos recursos naturais, geração de resíduos em progressão geométrica, poluição e contaminação ambientais crescentes, avanço progressivo sobre áreas naturais, escassez de água, destruição de habitats com consequente redução na biodiversidade, incremento na emissão de gases de efeito estufa, etc..
Paradoxalmente, a ganância desmesurada da globalização capitalista poderá ser seu algoz. As recentes crises que abalaram a economia estadunidense com reflexos que estão sendo sentidos até agora no restante do mundo, especialmente na Europa, demonstram isso. A facilidade que a tecnologia propiciou na área da comunicação, causa e ao mesmo tempo consequência da globalização, promove a gestação de movimentos contrários ao capitalismo selvagem, turbinados pelas redes sociais.
A análise do fenômeno da globalização com alguma profundidade joga por terra as teses conspiratórias contra as ONGs ambientalistas, que atribuem a elas interesses contrários ao desenvolvimento das nações emergentes. A degradação ambiental ocorrida nesses países tem concentrado riqueza nas mãos das corporações transnacionais que compram nossas commodities para produzir bens industrializados de valor muito maior. A estadunidense Cargill é um exemplo didático.
Assim como em qualquer atividade humana, a luta pela conservação ambiental não pode prescindir dos conhecimentos históricos, econômicos e geopolíticos, sob pena de que se cometam erros cruciais de avaliação que acabam levando ao fracasso.

domingo, 9 de outubro de 2011

Capitalismo e suas mazelas


Por Joaquim Maia Neto
Praticamente todas as mazelas vividas pela sociedade moderna têm como causa o sistema capitalista. Aqueles que afirmam isso e lutam contra o sistema costumam ser considerados pessoas utópicas, distantes da realidade.
A hegemonia do pensamento capitalista, que começa a ruir com as frequentes crises que estão abalando o mundo desde a quebra de Wall Street em 2008, deve-se em parte a inexistência de uma experiência socialista que se preocupasse com o bem estar das pessoas e do planeta. Todos os regimes socialistas experimentados no mundo se utilizaram de repressão à sociedade e impuseram às pessoas diversos tipos de sofrimento. Além disso, à semelhança do capitalismo, buscaram o crescimento econômico linear.
Apesar de equivocados e danosos, os regimes socialistas autoritários não são piores do que o capitalismo em termos de imputação de sofrimento e criação de problemas econômicos, sociais e ambientais de difícil solução. Aliás, os problemas que o capitalismo causa têm solução impossível na hipótese de manutenção do regime.
A condição básica para o “êxito” do capitalismo é o crescimento econômico constante. Para isso, as pessoas têm que consumir cada vez mais. Se isso não for possível, deve-se garantir o crescimento com um número crescente de pessoas sendo inseridas no mercado. Esse objetivo tem sido alcançado com o crescimento demográfico mundial e com a publicidade violenta sobre grupos que tem potencial de se tornarem consumidores, como as crianças, por exemplo. Um sistema assim não é de modo algum compatível com as limitações naturais existentes no planeta e, portanto, não existe sustentabilidade ambiental dentro do sistema capitalista.
A questão ambiental é apenas uma das fontes de problemas causados pelo capitalismo, que em sua versão moderna, se utiliza de uma eficiente ferramenta de perpetuação que potencializa as enfermidades do sistema: a corporação. Em 2003 foi lançado “The Corporation”, um excelente documentário dos canadenses Mark Achbar e Jennifer Abbott, inspirado em um best-seller de Joel Bakan. O filme explica com riqueza ímpar a ascensão das grandes corporações mundiais e os problemas sociais, ambientais, econômicos e políticos causados por elas, além de dissecar a máquina de manipulação mercadológica que as constitui. Em uma bela analogia muito bem trabalhada no documentário, procura-se identificar o perfil psíquico da corporação, e conclui-se que, se fosse uma pessoa natural, a corporação seria um psicopata, dada a capacidade de prejudicar deliberadamente as pessoas, sem nenhum remorso ou arrependimento.
Sempre atrelada ao poder, a corporação tornou-se a instituição mais poderosa no mundo atual, submetendo até mesmo o poder político aos seus interesses. Passando por situações de cooperação com regimes totalitários, como o apoio da estadunidense IBM ao governo de Hitler na Alemanha nazista, até a completa submissão de governos aos seus interesses, como no caso da privatização da água boliviana à francesa Suez, em 1997, por imposição do FMI, as corporações são o braço operacional do capitalismo, concentrando renda nas mãos de poucos às custas de prejuízos a muitos. Trabalho escravo, poluição, golpes de estado, genocídio, fome, guerras, entre outras chagas repudiadas publicamente por qualquer executivo de uma grande transnacional, estão entre as ações e consequências das atividades de quase todas as grandes corporações mundiais.
Muito se tem falado da nova doutrinação imposta pelo sistema capitalista para se eximir de sua responsabilidade sobre o colapso ambiental iminente, impedindo com isso uma reação social contra o sistema. A estratégia é iludir o consumidor de que suas escolhas pessoais e ações individuais são suficientes para reverter o quadro de esgotamento dos recursos naturais, desequilíbrio ecológico e mudanças climáticas. Não sou do grupo dos que desprezam as ações individuais. Ao contrário, acho que elas são importantíssimas para reduzirmos nosso impacto no planeta e ganharmos tempo. Tempo para quê? Tempo para lutar contra um sistema que nos faz comprar cada vez mais coisas que não precisamos e que nos valoriza de acordo com nossa capacidade de consumir recursos naturais, descartar lixo em quantidades crescentes e poluir cada vez mais. Só faz sentido evitar a compra de alimentos com componentes transgênicos, optar por alimentos orgânicos ou ir ao trabalho de bicicleta, se houver a compreensão de que não se deve abdicar de desmontar as estruturas que estão destruindo o planeta, gerando violência devido à segregação social e excluindo milhões de seres humanos do acesso ao mínimo necessário para uma vida digna. 
Ainda estamos muito distantes de um mundo onde a solidariedade, a justiça, os valores morais, a ética e o respeito à natureza, predominarão. Mas esse mundo tem que estar em nossas mentes como uma utopia a ser construída diariamente. Sobrevivemos nessa sociedade doente, ora enfrentando o regime, com maior ou menor empenho e resistência, ora aceitando suas imposições para continuar vivendo. São inevitáveis algumas contradições individuais, que serão superadas na medida em que o enfrentamento do problema ganhar um caráter coletivo.
 
Mindmap of The Corporation - Fonte: Galeria de Austin Kleon - http://www.flickr.com/