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domingo, 25 de março de 2012

Nosso lugar no Universo

Por Joaquim Maia Neto

Em meados de 1982 a Rede Globo exibiu um documentário, produzido nos EUA dois anos antes, que viria a influenciar milhares de jovens pelo Brasil afora, como fez em outras partes do mundo no qual foi exibido. “Cosmos”, uma série em 13 capítulos produzida e apresentada pelo brilhante astrônomo Carl Sagan, foi uma exitosa produção que popularizou o conhecimento astronômico, até então inacessível para o público leigo.
À época não eram comuns os documentários que hoje pipocam em diversos canais fechados e também na TV aberta. Para um garoto de dez anos como eu era muito difícil ter acesso a informações científicas. Não havia internet. O mundo era muito diferente.
Aquela série abriu, para os garotos da minha idade, uma janela voltada a um universo muito mais amplo do que aquele que os nossos sentidos poderiam nos mostrar. O talento comunicativo e a didática de Sagan tornavam fácil o entendimento básico de como é o Universo e maravilhavam o espectador defrontado com a vastidão cósmica.
A partir de “Cosmos” eu comecei a ver o mundo de outra maneira e acredito que isso aconteceu com muita gente. Desde então, cada vez que olhava o céu só conseguia pensar em como somos pequenos diante da imensidão de tudo o que existe além do nosso planeta. A consciência de quão inóspito é o ambiente fora da nossa esfera azul leva à reflexão de que não temos outro lugar. Se continuarmos agredindo o planeta a ponto de degradar as condições que dão sustentação à vida, não teremos para onde correr.
Imagem da Sonda Voyager 1 mostrando a Terra,
a 6,4 bilhões de Km, como um pálido ponto azul
Em 1990 a sonda espacial Voyager 1, no final de sua peregrinação pelo Universo, tirou uma fotografia da Terra a uma distância de 6,4 bilhões de quilômetros. Nosso planeta aparece como um pequeno ponto pálido em meio a um fundo pontilhado por astros distantes. Essa imagem levou Carl Sagan a fazer muitas reflexões a respeito da nossa existência, que foram compiladas no livro “Pálido Ponto Azul: uma visão do futuro da humanidade no espaço”, publicado em 1994.

Não vou aqui dizer o que Sagan já disse, até porque eu não poderia nem mesmo me aproximar da maneira emocionante com a qual ele escrevia e debatia um assunto aparentemente tão técnico com uma linguagem bem humorada e empolgante. O vídeo abaixo é uma pequena síntese do que significou para Sagan aquela simples imagem da Terra, muito diferente das que nos habituamos a ver.
Não há como não sentir um frio na espinha, um receio, certa inquietação ao saber que somos praticamente irrelevantes diante da grandeza do Universo. O que são as nações diante desse contexto? Por que há líderes que cometem atrocidades para dominar esse pontinho quase imperceptível, ou uma fração dele? Para que serve nossa arrogância? Somos algo mais do que poeira estelar? Há alguém nos observando, olhando por nós, preocupado conosco? Tudo aquilo a que damos valor, as pessoas que amamos ou não gostamos, o que temos ou o que desejamos, nossos sonhos, nós mesmos, tudo está nesse minúsculo ponto e a 6,4 bilhões de quilômetros não é possível ver nada disso. Na imagem, não há qualquer vestígio da nossa existência.
A história da humanidade, bilhões de anos de evolução biológica, guerras, descobertas científicas, tragédias, tudo aconteceu numa minúscula partícula que vaga em meio a uma infinidade de planetas, estrelas, energia, gás, etc. Todos os que um dia conhecemos ou viremos a conhecer fizeram desse pequeníssimo mundo seu lar. Um torrão de rocha e metal, quase imperceptível é onde estamos confinados e é tudo o que temos para compartilhar com 7 bilhões de pessoas e todos os outros seres vivos que aqui estão.
Deve haver alguém em algum outro grãozinho desses muitos que, assim como a Terra, estão em algum canto do Universo, mas isso não importa. O fato é que só temos o nosso ponto pálido e temos que cuidar dele, mantendo-o habitável, confortável e justo até o dia em que nossa espécie deixar de existir, o que certamente ocorrerá muito antes que este mundo seja engolido pela estrela que nos fornece a energia vital. Essa é uma das lições da imagem da Voyager.
 A astronomia é uma lição de humildade que Carl Sagan conseguiu levar para além do mundo acadêmico. Nada  justifica agir como estamos agindo. Não há ser humano que possa ser considerado melhor que outro. Somos infinitamente pequenos e efêmeros diante do tamanho e do tempo de existência do cosmo ao qual pertencemos. Verdadeiramente um pó, organicamente estruturado pelo curto tempo de existência de nossa vida física.


domingo, 18 de março de 2012

As mudanças no Código Florestal Brasileiro: exemplo de retrocesso e falta de compromisso com o futuro*


Por Joaquim Maia Neto

O Brasil é o segundo país do mundo em extensão territorial coberta por florestas nativas, com mais de 519 milhões de hectares, ficando atrás apenas da Rússia. Cerca de 62 por cento do território brasileiro ainda é naturalmente florestado. A biodiversidade brasileira, intimamente associada às florestas, é uma das maiores do planeta. Toda essa riqueza é responsável pela prestação de importantíssimos serviços ambientais.
O atual Código Florestal Brasileiro data de 1965 e surgiu da necessidade de aperfeiçoamento da legislação anterior. Em vigor há 46 anos, foi melhorado por leis e medidas provisórias durante as três últimas décadas, sempre no sentido de adequar a política de conservação ambiental ao contexto atual. Leia mais...

Read the full article in English.
Lea el artículo completo en español.
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*Publicado originalmente no site da  Regional Latinoamericana de la Unión Internacional de Trabajadores de la Alimentación, Agrícolas, Hoteles, Restaurantes, Tabaco y Afines (Rel-UITA) - http://www.rel-uita.org

terça-feira, 13 de março de 2012

Notícia: Atlas de Espécies Ameaçadas em Unidades de Conservação

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade - ICMBio, órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, está atualizando o Atlas de Espécies Ameaçadas em Unidades de Conservação. O Atlas sistematiza informações de diferentes fontes científicas, contribuindo para apontar caminhos para a melhoria da gestão de nossas Unidades de Conservação e para o planejamento da conservação das espécies da fauna e da flora ameaçadas.
Para ampliar a participação das comunidades científica e acadêmica na confecção do novo Atlas, o ICMBio, po rmeio da sua Coordenação Geral de Manejo para Conservação (CGESP), lança em seu site uma Consulta Pública, onde o pesquisador e/ou acadêmico da área de ciência sbiológicas, ambiental, florestal, zoologia, entre outras, poderá contribuir fornecendo dados sobre o registro de espécies ameaçadas encontradas dentro dos limites das Unidades de Conservação federais, adicionando assim informações inéditas à base de dados.
São dois questionários, um para a FAUNA e um para a FLORA. O prazo da Consulta é até 13 de abril de 2012.
A primeira edição do Atlas, que foi lançada em abril de 2011 está disponível em: http://www.icmbio.gov.br/portal/images/stories/documentos/Atlas-ICMBio-web.pdf

domingo, 11 de março de 2012

A insuficiência das mudanças individuais

Por Joaquim Maia Neto
A luta ambientalista deve ser travada em várias frentes. A máxima “pensar globalmente e agir localmente”, consagrada a partir da Rio 92 com a Agenda 21, sinaliza uma dessas frentes. Isso não quer dizer que as ações globais, como aquelas atualmente discutidas acerca das mudanças do clima, para citar um exemplo, devam ser abandonadas.
Fazendo um paralelo sobre a discussão das ações globais e locais, convém refletir sobre a dualidade entre ações individuais e coletivas, ou sobre ações pontuais e estruturais.
Tornou-se moda reduzir a discussão às atitudes individuais. Muitos alegam que se cada um fizer a sua parte, o mundo será melhor, o que não deixa de ser verdade. Assim, procura-se levar as pessoas à consciência de que devem comprar produtos produzidos de maneira sustentável, economizar água, deixar o carro em casa, não comprar animais silvestres, etc. Tudo isso é muito importante e deve-se continuar trabalhando fortemente para que as
 pessoas continuem mudando seus hábitos e para que se crie uma geração com um padrão de comportamento no qual as decisões individuais são baseadas no interesse coletivo. Porém isso é absolutamente insuficiente para fazer frente à crise ambiental pela qual o mundo está passando.
Fonte: http://www.coletivoverde.com.br/
A crença de que reverteremos a marcha para o colapso ambiental apenas com atitudes individuais é inerente a um único discurso, mas tem origem em duas formas distintas de pensamento. A primeira delas é extremamente ingênua. Parte do pressuposto de que se as pessoas individualmente mudarem seus hábitos, o mercado irá se adaptar a formas de produção e consumo mais sustentáveis e tudo ficará bem. Esse pensamento, na sua concepção mais romântica, defende que não se deve regular rigidamente o mercado, impor sanções aos agentes econômicos ou responsabilizar o capital pela degradação ambiental, pois esta só acontece porque há ávidos consumidores dispostos a consumir os bens, produtos e serviços gerados por formas de produção insustentáveis. Se há desmatamento na Amazônia, é porque há consumidores de carne proveniente de boi pirata. Se há garimpo de ouro contaminando os rios com mercúrio, é porque há pessoas dispostas a adornar seus corpos com jóias feitas com o precioso metal, e por aí vai... Nessa linha as ações, principalmente educativas, deveriam ser focadas no consumidor, que é quem financia a cadeia produtiva.
 A segunda linha de pensamento adota o mesmo discurso, porém com motivação que de ingênua não tem nada. Corporações e grupos econômicos altamente organizados movimentam-se ativamente para jogar toda a responsabilidade nos ombros do consumidor. Esses grupos até modificam algumas de suas atitudes no sentido de adotar padrões de produção mais amigáveis ao meio ambiente, desde que o consumidor esteja disposto a pagar por eles. Exemplos estão por toda a parte. Inúmeras indústrias lançam linhas de produtos sustentáveis com altos preços, voltados a uma elite que pode pagar para aliviar sua consciência, enquanto produzem, muitas vezes nas mesmas plantas industriais, os produtos tradicionais oriundos de sistemas produtivos ambientalmente agressivos, com preços que só são baratos porque socializam o custo das externalidades negativas com toda a sociedade, enquanto o lucro é apreendido pelo fabricante.
Quero deixar claro que sou adepto das mudanças individuais de atitude, mas isso jamais resolverá o problema isoladamente. Quem acredita nas mudanças apenas pela via individual desconhece ou desconsidera complexos mecanismos econômicos ou de marketing que colocam o consumidor em condição infinitamente desvantajosa em relação ao produtor.
Milhões (em qualquer que seja a moeda) são gastos em campanhas publicitárias altamente técnicas, que dispõem de assessoramento psicológico e neurolinguístico para criar falsas necessidades nas mentes do consumidor. Há uma enorme assimetria de informações entre quem produz – e vende – e quem compra e consome. O poder econômico é extremamente diferente em cada um dos lados da balança. Por mais consciência que tenha um trabalhador que ganha salário mínimo ou pouco mais que isso, continuará escolhendo os produtos mais baratos, mesmo se for mostrado a ele que o custo da degradação que não foi internalizado no preço do produto será pago por ele próprio de outras formas.
Em alguns setores o mercado é tão concentrado, que não há opções para a aquisição de produtos ou serviços ambientalmente corretos. Tente, por exemplo, comprar um salgadinho de milho ou uma ração de cachorro que não seja produzida com vegetais transgênicos. Tente comprar produtos em embalagens retornáveis.
A regulação ambiental, assim como qualquer regulação econômica, é fundamental para o enfrentamento do problema. A crise financeira de 2008 demonstrou ao mundo que o mercado não se auto-regula. Se o Estado não cumprir o seu papel de interferir na sociedade usando suas prerrogativas no sentido de promover o equilíbrio, imperará a “lei do mais forte”. E cabe à sociedade organizada exigir essa postura dos entes estatais, pois o Estado não é isento da pressão exercida pelos atores econômicos. Quantas instituições públicas estão capturadas por interesse privados? É necessário que os movimentos sociais se organizem e também pressionem o Estado.
Da mesma forma que os supermercados aboliriam as sacolinhas plásticas se os consumidores as rejeitassem, os consumidores também se adaptariam caso os supermercados deixassem de fornecê-las. Mas o comércio não faz isso porque não interesse a ele. Aí é que entra o papel do Estado.
Responsabilizar o lado mais fraco e menos organizado pela crise ambiental é um grande equívoco, pois não há qualquer eficácia nessa prática. Guardadas as devidas proporções, seria o mesmo que prender todos os usuários de drogas, ou interná-los, ou ainda quem sabe tentar convencê-los de abandonar seu vício, abrindo mão de combater o tráfico. Já pensou se o IBAMA contratasse uma legião de fiscais para percorrer cada casa verificando se há madeira ilegal nas construções, ao invés de combater o desmatamento e fiscalizar as madeireiras?
A crise ambiental é, sobretudo, uma crise do capitalismo e apesar das ações individuais e educativas serem muito importantes, não haverá solução se o problema não for atacado em sua raiz, o que pode ser conseguido apenas com uma ação estatal motivada pela mobilização social, voltada a colocar o interesse público acima dos interesses privados.

domingo, 4 de março de 2012

Reflexões de um ambientalista

Por Joaquim Maia Neto
Ser ambientalista no Brasil não é fácil. É necessário um esforço enorme para buscar esperança, motivação e expectativa de avanços, evitando dessa forma o esmorecimento. A fantástica biodiversidade do país é sem dúvida uma grande incentivadora de milhares de pessoas que enveredam de diversas maneiras pelo caminho da proteção da natureza. Para quem já tem uma predisposição pela causa, a contemplação da exuberância da fauna, flora, paisagens naturais e processos ecológicos que brindam nosso país com uma riqueza única, é algo que incentiva fazer alguma coisa, dedicar algum tempo para conservar as diversas formas de vida e o ambiente que as sustenta. Outra motivação comum para a luta ambiental é a indignação despertada em nós quando vemos a degradação acelerada motivada pelo poder do dinheiro.
Foi justamente a riqueza da nossa biodiversidade que me levou, logo cedo, a ser um apaixonado pela natureza. Percebendo minha vocação minha mãe já me presenteava, quando ainda criança, com livros que descreviam espécies animais e vegetais de todo o mundo. Eu achava muito interessante saber que ao meu redor era possível observar uma diversidade maior do que aquela retratada nas obras originalmente publicadas no velho mundo ou na América do Norte. Uma breve incursão numa mata, em companhia do meu pai, me permitia observar mais espécies de aves do que as que eu encontrava nos capítulos sobre os ambientes da Europa, por exemplo.
Sendo um garoto caipira, do interior, era natural frequentar os ambientes aquáticos continentais. As pessoas se divertiam nadando ou pescando nos rios, córregos e represas. Logo a ictiofauna me despertaria grande interesse. Numa época na qual as crianças viviam “soltas”, desconectadas da parafernália eletrônica que ainda não dominava os lares, eu passava várias horas do dia “batendo peneira”, tentando identificar os espécimes de peixes. Muitos deles eram capturados por mim e passavam a viver nos meus aquários. Foi assim que tudo começou. O aquarismo, que me levava a fazer até algumas bobagens, como retirar os bichos do seu hábitat, foi importante para trazer o conhecimento de como a natureza funcionava e de quão bela ela é na sua “simplicidade complexa”. O palco das minhas primeiras aventuras ictiológicas foi o Córrego Canela, que hoje não passa de um canal de drenagem encravado na região central de uma São José do Rio Preto que há muito deixou de ser bucólica.
Quando me dei conta de que minha vida jamais se afastaria das questões ambientais, já estava na universidade estudando biologia. Desde então pude experimentar várias maneiras de viver o ambientalismo. O engajamento nos movimentos sociais, políticos e religiosos sempre foi direcionado, senão totalmente, em boa medida para a discussão e defesa do meio ambiente. Tentei de alguma forma contribuir ensinando, pesquisando, debatendo, educando, votando e acima de tudo procurando dar exemplo. O serviço público me permitiu durante um bom tempo ganhar a vida defendendo o meio ambiente, mas dentro da máquina pública é preciso muitas vezes brigar para conseguir fazer o que deve ser feito e nem sempre se sai vitorioso nessa briga. Escrever foi uma forma que encontrei para ter mais armas na batalha ambientalista.
Apesar de não parecer, o ambientalista é essencialmente um otimista. Só continua lutando porque acredita que ainda é possível salvar um sítio natural, um ecossistema, uma espécie, um bioma, o planeta. Porque crê na mudança da sociedade e do comportamento das pessoas. Muitos enxergam os ambientalistas como os cavaleiros do apocalipse que estão sempre prontos a anunciar a tragédia ambiental, o caos, o fim do mundo. Se não fôssemos otimistas, seria mais cômodo aproveitar o que resta do mundo, obtendo o máximo conforto enquanto isso é possível. Ao contrário, preferimos deixar a zona de conforto e lutar pelo futuro.
Hoje eu iria escrever sobre a Política Nacional de Resíduos Sólidos, uma lei publicada no final do Governo Lula e que, a exemplo da Política Nacional sobre Mudança do Clima, abordada no artigo anterior, é uma das coisas positivas que recentemente aconteceram no Brasil e que fazem parte do rol de assuntos motivadores a alimentar os ideais dos que lutam por um ambiente mais equilibrado. Infelizmente, por ironia do destino, enquanto eu rascunhava um esboço de texto sobre resíduos, recebia a notícia de um novo carregamento de lixo importado que chegara ao Porto de Itajaí. Eu já havia escrito sobre esse tipo de problema alertando que essas importações poderiam ser mais comuns do que se pensa, pois uma amostra pequena dos containeres é conferida pelos fiscais. A nova importação de lixo, dessa vez proveniente do Canadá, teve um espaço na mídia muito inferior aos casos anteriores, o que é típico de algo que se torna comum. A triste notícia e mais a expectativa da votação do desmonte do código florestal na próxima terça-feira na Câmara dos Deputados, levaram-me a publicar estas reflexões ao invés da discussão sobre os resíduos.
Não importa quantas batalhas sejam perdidas, haverá sempre alguma vitória, ainda que pequena, que mostra que a luta vale a pena. Uma notícia de redução de desmatamento, a publicação de uma lei que facilite a equação de um problema ambiental, a criação de uma unidade de conservação, um movimento organizado de defesa de um bem ambiental, uma vitória do Ministério Público na defesa dos direitos difusos, uma geração mais consciente, todos são motivos para renovar as esperanças. A necessidade de deixar de destruir, de poluir menos, de respeitar a natureza é cada vez mais evidente. Até quem não quer ver será obrigado a abrir os olhos. Fenômenos como os tufões que varreram cidades americanas do mapa na semana passada são cada vez mais frequentes. Está difícil dissociar essa constatação de sua mais provável causa, que são as mudanças do clima. As ações do homem terão que convergir para a equação dos problemas ambientais, cujo caminho é uma relação mais harmoniosa com a natureza. Portanto, não há como os ideais ambientalistas não prevalecerem.  Nós ambientalistas, sabemos disso, mas lutamos ainda assim para que a solução chegue o quanto antes. Assim, quem sabe, as sequelas serão menores.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Desafios do Brasil quanto às mudanças do clima

Por Joaquim Maia Neto
Um dos temas centrais do debate ambiental atual é o problema das mudanças climáticas. Enquanto no final do milênio passado as discussões giravam em torno de temas como o desmatamento das florestas tropicais, a redução da biodiversidade e a escassez de recursos hídricos, por exemplo, a partir do século XXI o aquecimento global assumiu a vanguarda das preocupações dos ambientalistas, até porque suas consequências estão intimamente vinculadas aos demais problemas ambientais.
Crédito: Agência Imagine
http://www.imagine.nl/
É inegável que a questão climática predomina nas discussões empreendidas nos organismos multilaterais internacionais, não apenas nos fóruns estritamente ambientais, mas também nos econômicos e sociais, dado o impacto negativo que os distúrbios climáticos causarão na economia de um modo geral. Estão previstos sérios problemas na produção de alimentos, no regime hidrológico, com consequentes conflitos motivados pela falta de água em algumas regiões do planeta, e na defesa contra desastres naturais, que estão aumentando em frequência e intensidade. Nas próximas décadas provavelmente conviveremos com a problemática dos refugiados ambientais, devido à transformação de grandes áreas em ambientes cada vez mais inóspitos.
Toda a discussão mundial em torno do meio ambiente tem sido pautada basicamente pela necessidade de ações concretas voltadas à mitigação das mudanças climáticas, bem como à adaptação da sociedade e dos ecossistemas à mudança do clima. Na Rio+20, que acontecerá neste ano, o assunto permeará todos os temas a serem abordados. Dois pontos importantes que serão tratados na conferência são a transição para uma economia verde e o desenvolvimento de instrumentos de governança ambiental global, sendo que ambos têm como foco, entre outras questões, o enfrentamento dos problemas climáticos. O segundo ponto está levando à salutar discussão sobre a necessidade de criação de uma organização mundial para o meio ambiente, nos moldes da Organização Mundial do Comércio (OMC) ou da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A proposta já conta com o apoio de mais de cem nações e pode ser a chave para a solução dos recentes impasses nas negociações ambientais entre os estados nacionais, causados pelas dificuldades surgidas com a crise econômica global que esfriou a busca por ações concretas, na medida em que está levando os governos a rechaçarem qualquer proposta que implique frear algum crescimento econômico. Isso tem sido visto por diversos analistas como um motivo que levará ao fracasso da Rio+20.
Apesar de algumas manifestações destoantes e de alguns escândalos envolvendo a manipulação de dados nos estudos sobre as mudanças climáticas, pode-se considerar como praticamente consensual o diagnóstico de aceleração do aquecimento do planeta causado por ações antrópicas e suas consequências adversas.
Avanço do mar sobre a orla em Baía
da Traição - PB
Foto: Rostand Medeiros
http://www.tokdehistoria.wordpress.com/
Mesmo defendendo uma responsabilização maior das nações desenvolvidas no enfrentamento do problema, o Brasil deu um importante passo com a elaboração do Plano Nacional sobre Mudança do Clima, a criação do Fundo Nacional sobre Mudança do Clima e a instituição da Política Nacional sobre Mudança do Clima - PNMC (Lei 12187, de 29 de dezembro de 2009). Por meio desta Lei, o país assumiu o compromisso voluntário de redução entre 36,1 e 38,9% de suas emissões de gases do efeito estufa (GEE) projetadas até 2020, o que é uma meta bastante corajosa. Com essa atitude o Brasil dá um grande exemplo às demais nações, em especial àquelas que mais emitem GEE e se candidata à liderança mundial na mediação das negociações que visam avanços a respeito do tema. É uma boa credencial para quem será anfitrião da maior conferência ambiental do planeta.
Por outro lado, nosso país também tem seus pecados. A política desenvolvimentista implementada pela presidente Dilma criou um cenário favorável a ataques bem sucedidos contra a legislação ambiental brasileira. A pressão do agronegócio, que tem uma importante bancada no Congresso Nacional, tem alcançado êxito nos esforços para promover o retrocesso, principalmente na política florestal. A aprovação da Lei Complementar 140, no final do ano passado, foi o maior ataque já consolidado. Caso as mudanças no código florestal aprovadas pelo Congresso sejam sancionadas pela presidente da república, dificilmente o Brasil cumprirá suas metas voluntárias definidas na PNMC, devido ao aumento no desmatamento com o consequente incremento das emissões que a reforma legislativa causará.
Fonte: http://www.ethos.org.br/

Se o Plano Nacional sobre Mudança do Clima for efetivamente implementado, o cenário torna-se mais animador. O plano foi concebido num contexto de oportunidades de mitigação em diversos setores, como energia, transportes, edificações, indústria, agrícola, silvicultura/florestas e resíduos. Como exemplo de ações de mitigação previstas no plano, temos a recuperação do metano de aterros, a incineração com recuperação energética e a reciclagem, na área de resíduos, bem como a utilização de veículos eficientes, a modernização da frota, a expansão dos modais ferroviário e aquaviário e os incentivos ao transporte coletivo, na área de transportes.
Temos três pilares importantes para enfrentamento da questão das mudanças do clima, a Política, o Plano e o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima, este como importante instrumento de financiamento das ações necessárias para execução do plano. Resta saber como alcançar resultados neste cenário de políticas contraditórias adotadas pelo governo, que acena à comunidade internacional com medidas de responsabilidade climática, mas internamente faz o jogo dos interesses econômicos que não têm qualquer compromisso além do lucro fácil e imediato.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Globalização e meio ambiente

Por Joaquim Maia Neto
Apesar de o termo “globalização” estar, de uma maneira geral, associado às mudanças ocorridas no cenário mundial entre o final do século XX e o início do século XXI, é possível afirmar que se refere a um fenômeno cíclico, com picos “globalizadores” ao longo da história. Talvez a primeira grande onda da globalização tenha ocorrido durante o período das grandes navegações, que possibilitaram ligações comerciais entre continentes distantes.
A globalização como a conhecemos hoje tem suas raízes na época imediatamente posterior ao fim da segunda guerra mundial. Os maciços investimentos empreendidos por algumas nações, direcionados à manutenção da máquina de guerra, fincaram as bases do aparato tecnológico que possibilitou a expansão dos mercados, criando a chamada economia-mundo.
Os EUA emergiram da segunda grande guerra como potência econômica. Beneficiados pela concentração da tecnologia e pela capacidade econômica de financiar a reconstrução dos países arrasados pelo conflito, passaram a exercer forte domínio sobre boa parte do mundo, não alcançando a hegemonia global graças à bipolarização decorrente da divisão do poder mundial com a União Soviética. Surgida após a primeira guerra mundial em decorrência da revolução que depôs a monarquia czarista, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas - URSS lutou ao lado dos aliados na segunda guerra, pois havia sido invadida pelas tropas nazistas. Com a derrota do Eixo, coalizão composta, entre outros, pela Alemanha, Itália e Japão, a URSS, que à época já era uma potência industrial, garantiu influência sobre todo o leste europeu. Essa bipolarização deu origem à Guerra Fria, que duraria até 1991.
Após a queda do Muro de Berlim, em 1989, as condições para a rápida expansão capitalista no mundo estavam criadas. A partir de então o poder das corporações passou a ficar cada vez mais evidente em detrimento do poder dos estados nacionais. A adoção por muitos países de modelos econômicos liberais, sob a influência da doutrina implantada por Margaret Thatcher no Reino Unido, aliada ao avanço tecnológico nas comunicações e nos transportes, permitiu o surgimento da “aldeia global”. Estabeleceu-se a divisão internacional do trabalho, por meio da qual as corporações pulverizam etapas da produção de bens em diversos países, garantindo o maior lucro possível. Enquanto no passado a produção industrial se dava na metrópole, que obtinha a matéria prima a partir das colônias, no novo modelo a produção passou a ser feita nos países menos desenvolvidos para garantir menor custo de produção, devido principalmente à mão-de-obra mais barata. A prática muitas vezes leva à exploração desumana dos trabalhadores de países periféricos e garante a disseminação global dos produtos a preços competitivos.
Fonte: http://www.gaia.org.pt/

As consequências ambientais da globalização e da implantação da nova ordem mundial do pós-guerra são catastróficas. A crise ambiental que ameaça o futuro do planeta tem sua origem justamente na expansão capitalista promovida pela globalização. Para a economia globalizada continuar crescendo são necessários cada vez mais consumidores, ainda que não consumam sequer o mínimo necessário a uma vida digna. O aumento do consumo por aqueles que já dispõem do necessário para viver é uma necessidade constante, que é estimulada por campanhas publicitárias, mensagens subliminares e por um sistema que valoriza as pessoas pelo seu poder de compra e não pela essência de cada ser.
Planejamento familiar, soluções coletivas para aquisição de bens e serviços (incluindo o transporte coletivo), formas alternativas de produção, estímulo à produção familiar de alimentos, entre outros, contrariam a lógica do mercado global e por isso não são fomentados pelos governos e instituições públicas capturados pelas corporações. Para que essa máquina continue girando é preciso que se disseminem padrões de comportamento altamente consumistas.
Nessa esteira seguem estratégias altamente sofisticadas, como a chamada obsolescência programada, observada com facilidade, por exemplo, no mercado de telefones celulares. Apesar de haver tecnologia disponível para produtos mais sofisticados, os modelos são lançados “a conta-gotas” para estimular o maior consumo. A indústria da moda é outra vertente da estratégia consumista, ditando padrões voláteis que impõem aos seus seguidores a necessidade de comprar novas roupas a cada estação.
As necessárias ações mitigadoras de problemas sociais, como o combate à fome, por exemplo, ou mesmo algumas louváveis ações de inclusão social, muitas vezes ajudam a movimentar o sistema, na medida em que trazem mais consumidores ao mercado. No entanto, medidas que possam distribuir renda mais efetivamente, como tributação progressiva ou uma regulação mais rígida do mercado não são adotadas. Discussões sobre controle populacional são consideradas tabus, sob o pretexto de que o desenvolvimento proporcionado pelo avanço da economia de mercado promove naturalmente o planejamento das famílias.
Fonte: leonamsouza.blogspot.com

No mundo dominado pelos interesses corporativos a demanda por matéria prima e energia é crescente. Isso resulta em exploração insustentável dos recursos naturais, geração de resíduos em progressão geométrica, poluição e contaminação ambientais crescentes, avanço progressivo sobre áreas naturais, escassez de água, destruição de habitats com consequente redução na biodiversidade, incremento na emissão de gases de efeito estufa, etc..
Paradoxalmente, a ganância desmesurada da globalização capitalista poderá ser seu algoz. As recentes crises que abalaram a economia estadunidense com reflexos que estão sendo sentidos até agora no restante do mundo, especialmente na Europa, demonstram isso. A facilidade que a tecnologia propiciou na área da comunicação, causa e ao mesmo tempo consequência da globalização, promove a gestação de movimentos contrários ao capitalismo selvagem, turbinados pelas redes sociais.
A análise do fenômeno da globalização com alguma profundidade joga por terra as teses conspiratórias contra as ONGs ambientalistas, que atribuem a elas interesses contrários ao desenvolvimento das nações emergentes. A degradação ambiental ocorrida nesses países tem concentrado riqueza nas mãos das corporações transnacionais que compram nossas commodities para produzir bens industrializados de valor muito maior. A estadunidense Cargill é um exemplo didático.
Assim como em qualquer atividade humana, a luta pela conservação ambiental não pode prescindir dos conhecimentos históricos, econômicos e geopolíticos, sob pena de que se cometam erros cruciais de avaliação que acabam levando ao fracasso.